“Eu até namoro os seus personagens”. Devaneios Machado de Assis

Cabe um parênteses ao blog. Gostei muito dessa reportagem sobre Machado de Assis além de ser muito pertinente aos vestibulandos. Abraços.

fonte: Caderno Cultura do Jornal Estadão.

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Minha alma e meu coração têm Machado de Assis sempre presente. Eu li O Alienista no colégio. Sou muito influenciado por Machado, porque ele inaugura aqui uma literatura de risos e lágrimas. É discípulo de Gógol e Dostoiévski. Enquanto Dostoiévski pretendia o pan-eslavismo dominando o mundo, Machado queria a “brasilificação”, mas com uma mensagem superior, de doçura. Ele considera já lá atrás tudo o que seria tropicalista, tudo o que seria a nossa cultura atual, a diversidade. Ele sabia do amálgama, conceito de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838).

O personagem Quincas Borba, que aparece nas obras Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, declarou a filosofia do humanitismo. Ela é muito próxima do Kaos com K (teoria de Mautner desenvolvida na Trilogia do Kaos, composta pelos livros ‘Deus da Chuva e da Morte’, 1961; ‘Kaos’, 1963; e ‘Narciso em Tarde Cinza’, 1965, e concebida como “uma dialética, materialista, conflituada, sempre em movimento”), que é a inclusão de tudo.

O humanitismo é uma antropofagia anunciada, mas escrita no nível de um clássico eterno, e que absorve brasileirismos. Dostoiévski apresenta a análise da alma humana. Mas Machado de Assis é mais suave, e mais penetrante como investigador de almas. Ele tem a filosofia de absorver as coisas, na qual os contraditórios estão claramente descritos.

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O CETICISMO MACHADIANO

O ceticismo dele é o máximo da filosofia humanista, depois dos estóicos e dos epicuristas. É o alto humanismo. Esse ceticismo é todo dirigido ao ser humano, inclusive com piedade, ele é piedoso. Machado percorre todos os clássicos. Faz isso com observações profundíssimas, antecipando-se a visões sociólogas de grande alcance como a de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

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UMA CENA AGUDA

É só lembrar a cena em que o ex-escravo Prudêncio, depois de alforriado pelo pai de Brás Cubas, bate no escravo que adquiriu, chamando-o de bêbado. “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas -, transmitindo-as a outros. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!” (trecho do capítulo 68 de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’).

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 ESTILO MALEMOLENTE

A diferença de Machado é que seu estilo tem malemolência e o português dele é uma língua brasileira, como no samba de Noel Rosa (Não Tem Tradução), “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia/ é brasileiro/ já passou de português”.

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AS RELEITURAS

Suas obras me fazem companhia o tempo todo. Estou relendo Quincas Borba. Está escrito no início do capítulo 45: “Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.” Aí são os risos e choros encarados filosoficamente. Machado é o ápice da coisa mais sonhada por todo artista: a harmonia de medidas, que, em vez de deter o movimento, acaba por estimulá-lo mais. Ele tem o caminho do meio. Machado tem a primeira visão do Brasil universal e profundo. O humanitismo, do Quincas, tem a ver com o Kaos com K. E nada mais claro do que o manifesto produzido por esse personagem.

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NAMORO COM OS PERSONAGENS

Todos os personagens têm vida própria, eu converso o tempo todo com eles, que na verdade são o próprio autor. As cenas vêm como relâmpago na memória. Eu até namoro os seus personagens, que passam a viver dentro do imaginário e falam comigo nos sonhos e quando estou acordado. A presença de Machado é predominante em mim, tanto pela clareza como bom senso. A medida é ele. Todas as medidas da malandragem e das coisas ocultas. Ele capta o todo, todas as diferenças, as nuances do amor e do ódio. O suposto afastamento de que ele se serve para escrever é banhado de emoção. No fundo, como um estóico, ele tem a piedade. 

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MACHADO MESTIÇO

A mestiçagem é um fato fundamental. Ser mulato é ter no DNA e nos neurônios a captação de duas etnias, de dois mundos. Existe essa relação de ódio e amor. De submissão e desejo de liberdade. Machado sabe do sofrimento do outro, mas ele o transcreve com toda humanidade, sem demagogia. Ele é implacável. Ele é político com pê maiúsculo. Ele não tem preconceitos. Machado é o antinazismo, pois ele é a mistura de raças. Lembro o que Walt Whitman (1819-1892), o maior poeta dos EUA, disse: “O vértice da humanidade será o Brasil.”

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